Há vários estilos de corações. Os fechados, os de uma porta, de duas; corações feito tílburi de praça, que ama a todos e todas.
E há, sim, outros tipos de corações. Corações que parecem ter “brinquedo” marcado a ferro em suas paredes. Que, quem está de fora, vê, usa, brinca, como uma boneca de panos; manipula, joga, faz estratégias para ganha-lo, e então, jogá-lo fora, feito um brinquedo há muito tempo usado e abusado.
Há o tipo de coração que não possui um nome.
Ele já foi tudo; já foi tílburi, já foi de uma porta, de duas, já se manteve fechado “para balanço”.
Muitos o chamam de “coração mutante”, mas acho que deve haver termo melhor. Só não o encontramos, ainda.
Este coração, o “coração mutante”, é o meu tipo de coração.
Ele tem uma leve batida; tão suave quanto a brisa. Quem está distante, não o escuta. Ele não se movimenta; não faz barulho. As pessoas, ao longe, não o entendem. Acham que não bate. Não sentem na alma a leve vibração que ele possui. Tão discreta, esta vibração... Tão... Modesta, tão... controlada.
Por fora, ele está inteiro. A porta, apenas encostada. As janelas (sim, ele possui janelas!), mostra a parte interna. Tudo muito bonito, tudo muito arrumado. Por fora.
As pessoas se aproximam dele facilmente, motivadas pela curiosidade daquele coração que parece não bater. Observam sua porta, sua única porta. A outra, escondida ao fundo, já está fechada há tanto tempo que quase não existe. Tocam nele; sentem seu ritmo suave; sentem seu pulso fraco. Olham por suas janelas.
Lá dentro, tudo escuro. A pouca luz que entra do exterior mal ilumina o chão. Por dentro, ele está machucado, está bagunçado, está machucado. Suas paredes internas – que um dia foram de um lindo vermelho-rubro; da cor de sangue, da cor da paixão – agora são acinzentadas.
Alguns curiosos ousam entrar. Outros, vão embora, com medo dos segredos que este coração esconde. Poucos entram e permanecem; ajudam a limpar a bagunça e a reconstruir este coração jovem, mas ao mesmo tempo tão velho...
Porém, estas que entram e permanecem, permanecem por um longo tempo, se não eternamente. Organizam-no, arrumam-no. Cobrem os buracos das paredes. Sentem suas batidas; aquele leve tamborilar suave. Eles sabem que ali há um refúgio. Limpam-no e ajudam--no. Pensam como é possível que haja um coração tão machucado, mas que ainda bate.
Este coração, que parece tão triste por dentro, que parece tão... Machucado, é um exemplo quase perfeito do coração mutante. Se este permanecesse sempre se modificando para o mesmo, e nunca fosse o mesmo.
Desculpe, meu coração é além disso. Ele é tão confuso quanto a personalidade da pessoa que o carrega. É tão confuso quanto eu.
Ao mesmo tempo que ele parece quase sem vida, da mesma forma que ele parece um coração que mal bate, ele é vivo. Tão vivo quanto qualquer coração vivente, que bata mais forte que bumbo no desfile de carnaval. Ele é forte; ele oferece conforto. Ele protege, ele se importa. Mesmo que seja com alguém de fora.
Quem precisar de algo, não precisa entrar e ficar; basta entrar por um tempo, e permanecer ali o tempo que precisar.
Não, não é um coração masoquista. Ele se importa com os outros corações, mesmo que esses outros não se importem com ele.
Este coração, que tanto se importa, costuma sofrer sozinho. Costuma tentar reparar-se sozinho. Mesmo que ele não esteja sozinho.
Melhor observando, e ouvindo, há uma leve música na batida suave como uma brisa. Há uma musicalidade nas paredes acinzentadas e esburacadas; há um ritmo nas vibrações cansadas e vívidas dele.
Há um leve tom de rosa nas paredes, atrás de toda a poeira cinza.
Sim, é apenas uma fase.
Ele sabe disso. Eu sei disso.
Sofrimento... Não. Saudades. Este é o motivo da cor cinza. Saudades de amores que um dia se foram. Pessoas que entraram nele sem fazer cerimônia, deixaram sua marca a ferro, disseram que nunca iriam sair dali.
Mas saíram. Sem dizer “adeus”. Sem apagar suas marcas.
Isso dói, mas sei que passa.
Um coração conselheiro, que cantava ao som de suas batidas.
Só... Fria. Só... Fria.
Só fria, as batidas. Elas cantavam isso, o tempo todo. E então, ao ver aquelas pessoas que marcaram suas paredes e se foram, tamborilavam mais rápido.
Só... Fria. Só... Fria. So... Fria. Sofria. Esta era a palavra formada por suas batidas.
Sim, sofria. Mas não, não é assim que deve ser. Ele aprendeu consigo mesmo, e com as pessoas que tentavam restaurá-lo, que não deveria manter isso dentro de si.
Sim, há as marcas, e daí? Estas pessoas que marcaram; vai saber se não há marcas nelas também?
Sim, devem haver marcas. Tantas marcas quanto o possível.
Só... Fria. Só... Fria. So... Fria. Sofria. Não. Está na hora de cortar alguns “efe’s”.
Só... Fria. Só... Fria. So... Fria. Sofria. Está errado. Não há nenhum “efe” em “sofria”.
Sorria. Sim, sorria.
So... Ria.
Estas batidas voltavam a ser controladas.
Só... Ria. Só... Ria. Sorria.
Sorria, sim. Sorria. Esta palavra agora é a música das batidas. Sorria. Sorria o máximo que puder, sorria para afastar estas marcas e transformá-las em cicatrizes.
Sim, SORRIA! Estas são as batidas.
As batidas de um coração humano, sem nome, sem cores, sem amores.
Por: Bruna Baptista.
Por: Bruna Baptista.


