terça-feira, 16 de julho de 2013

Ecos

Ecos.
O som da minha própria respiração parecendo algo irreal. “Bastarda!” – gritavam os ecos. “Idiota!” – o mundo girava. Não, não era o mundo girando. Era eu.
“Eu posso vê-la... Se esconda!” – corri aos tropeços até a primeira porta que surgiu em minha frente. Subi uma escadaria íngreme. Os ecos me acompanhavam – a cada segundo eram mais altos. Cada degrau vencido era uma nova acusação.
A escadaria chegou ao fim. Estava parada no terraço de um dos pequenos prédios residenciais do centro da cidade. “Pule” – os ecos disseram. “Pule – você não fará falta”. Andei em linha reta. Preciso fazê-los calarem-se. Andei calmamente até não sentir o concreto sob meus pés. Deixei meu corpo cair livremente; os ecos rindo histericamente em minha mente. O solo chegando cada vez mais próximo, e... Nada. Escuridão. “Me livrei deles” – pensei. Não sentia nada. Apenas um suave formigamento na parte de trás da minha cabeça. Consegui fazer meus olhos se abrirem; os prédios tomando forma lentamente. E então...
Ecos.

O som da minha própria respiração parecendo algo irreal. “Bastarda!” – gritavam os ecos. “Idiota!” – o mundo girava. Não, não era o mundo girando. Era eu.







Bruna Baptista.

domingo, 7 de julho de 2013

A Culpa é das Estrelas

Neste fatídico domingo chuvoso na Grande Porto Alegre, resolvi iniciar a leitura de um livro que me foi muito recomendado: A Culpa é das Estrelas, da autoria de John Green. Confesso que, ao início da leitura, comecei a me perguntar o que tinha de tão interessante neste livro, e pensei em largar. Mas, como não tinha nada para fazer durante o dia, resolvi continuar a leitura. Eis que estou mais ou menos na metade do livro, e agora consigo perceber a magia presente neste conjunto metafórico de sequência de palavras que nos levam à reflexão. Por isso, resolvi postar um pequeno trecho que acabei de ler. Não é uma das melhores passagens do livro, em minha opinião... Mas achei tão lindo que para mim é impossível não compartilhar estas frases com alguém, mesmo que esse compartilhamento seja em um pequeno blog esquecido.



"— Estou apaixonado por você — ele disse, baixinho.   
— Augustus — falei.   
— Eu estou — ele disse, me encarando, e pude ver os cantos dos seus olhos se enrugando. — Estou apaixonado por você e não quero me negar o simples prazer de compartilhar algo verdadeiro. Estou apaixonado por você, e sei que o amor é apenas um grito no vácuo, e que o esquecimento é inevitável, e que estamos todos condenados ao fim, e que haverá um dia em que tudo o que fizemos voltará ao pó, e sei que o sol vai engolir a única Terra que podemos chamar de nossa, e eu estou apaixonado por você. " (A Culpa é das Estrelas)

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Um amontoado de palavras sem nenhum sentido

Primeira música, vamos lá. O nome dessa é "Stay". Talvez não importe, e você agora começa a pensar: "o que ela escreverá nesse texto?". A resposta é: não sei. Tenho o notebook no colo, uma música de fundo. Meus dedos dançam pelas teclas como meu corpo fazia há algum tempo quando ouvia a mais suave melodia. Caso você não saiba, a dança costumava ser minha vida. Mas essa história é para outro texto. Não quero que este se torne um amontoado de reclamações sobre minha vida.
Uma rápida pausa. Alguém me chama no Facebook. Uma pausa na dança dos meus dedos em cima das teclas. Não sei mais o que escrever. A música acabou. Outro momento, por favor.
Dez segundos de pensamentos. De repente, minha mente ficou cheia de ideias. "Fale sobre 'momentos'!, sobre como a vida passa depressa!". Mas isso é tão clichê! Quer dizer, iria me enrolar por várias linhas, e terminaria por não dizer nada! Essa é a primeira regra para uma boa redação... Use bons argumentos! E argumentos criativos, por favor. (Desculpem-me, pré-vestibular ocupa toda minha mente).
Outro momento para pensar. Em tantas linhas, ainda não disse uma palavra com sentido. Só amontoei várias letras, que por sua vez viraram sílabas, formaram frases e orações (frases e orações são diferentes, certo?), e continuam se aglutinando para formar parágrafos, e, por fim, formar um texto sem sentido.
Ah, outra música, por gentileza! Para acompanhar os ganidos do filhotinho Sirius e as palavras que jorram de minha mente sem se unirem com um sentido em comum.
Sim, sim, uma nova música. Essa se chama "Give The Love Around". Se querem saber, não está sendo muito útil para meus pensamentos.

Descobri, neste momento, que tenho prova amanhã, e não sei absolutamente nada do conteúdo, então... Acho que é hora de encerrar esse amontoado de palavras sem sentido nenhum.

Novamente, volto a este amontoado de palavras. Dessa vez, sem música. Apenas com os ganidos de Sirius aos meus pés. Sabem como é, filhotinho... Primeiro dia em casa. Será uma noite bem longa.
Por algum motivo, senti a necessidade de me alongar mais um pouco. Me explicar (enquanto Sirius morde meus pés). Minha mente está cheia de pensamentos inúteis. Cheia de distrações, dogmas e paradoxos. Todos tão complicados que é impossível impedi-los de rondar meus pensamentos. Então, escrevi. Deixei minha mente agir, deixei-a se desfazer de todo o lixo que ela mantinha em seu interior. O resultado? Releia este texto. Esse é o resultado.




domingo, 23 de junho de 2013

O Cientista

Ela era apenas mais uma no meio de uma confusão de pessoas apressadas. Cabeça abaixada, caminhava olhando para o chão. Passos rápidos, tentando se equilibrar em cima dos sapatos de salto alto. Volta e meia, ela colocava uma mecha do cabelo ruivo espesso para trás da orelha. Uma das mãos segurando firmemente sua bolsa negra, cheia de papéis e pequenos objetos. Ela passou na frente dele, e não o viu.
Ele estava sentado na fonte da praça central. A viu se aproximar. Seus cabelos ruivos brilhando à luz do sol. Mesmo na multidão, ela jamais era apenas "mais uma". Ela chamava a atenção, ela era diferente. E não fazia ideia do quanto ele a achava bonita. Aliás, ela não tinha ideia de que ele existia.
Esse não é um conto de amor. É um conto de tristeza, de como a vida passa pelos nossos olhos, e não a vemos. Não citarei os nomes dos dois personagens. Mas tudo se passará no ponto de vista do garoto. E o chamarei de "o cientista".
O cientista estava sentado na fonte da praça central, observando as pessoas irem e virem. Elas caminhavam de cabeça baixa, apressadas. A maioria usava negro, a "cor da elegância", como as revistas apresentavam. Todos pareciam iguais. Todos andavam da mesma forma. Todos eram robôs criados pelo capitalismo. Ele não saberia se diferenciar deles, na verdade. Escravos de uma sociedade neocontemporânea, onde o dinheiro representava poder e status. E todos corriam atrás de status.
Perdido em seus pensamentos, ele não reparou na garota que cruzava à sua frente. Cabelos ruivos, pele branca, roupas joviais, seguindo o novo estilo "hipster" que invadia as capas das revistas teens. E ela não reparou nele, um garoto de cabelos rebeldes, negros, calças largas demais para seu corpo, e uma velha camiseta branca manchada de tinta. Ela não reparou, também, que o cientista desenhava tudo o que acontecia ali em um surrado bloquinho de notas.
E assim se seguiu, por dias. Ele sentava na fonte da praça central. Ela passava por ele, sem nunca olhar para o lado. Sem nunca reparar em seu desenho sempre inacabado. Ambos perdidos demais em seus mundos, ambos interiorizados em seus próprios pensamentos.
Porém, o cientista, um certo dia, esqueceu-se de seu velho bloco de notas. Apenas se sentou na fonte da praça central, e pôs-se a observar a movimentação, o ir-e-vir das pessoas, a pressa e o cansaço que todas tinham incrustado em suas faces. Começou a imaginar mil e uma situações, sua mente divagando de um rosto para outro, criando histórias e vidas para cada um que passava por ali. Foi quando a viu. Como uma chama surgindo no horizonte, ela entrou em seu campo de visão. A ruiva, que ele nunca havia visto. Ela se aproximava dele, cabeça erguida, andar confortável, usando um velho tênis, os cabelos soltos ao vento, emoldurando seu rosto jovial. Ela passou em sua frente, e ele a admirou como jamais admirara ninguém. No outro dia, o garoto fez a mesma coisa. A observou passar, sem dizer uma palavra. Ele começou a reparar mais na aparência da ruiva. A cada dia, via um novo detalhe nela; e conforme os dias passavam, ele via algo novo, mas esquecia um outro detalhe. E viu que dessa forma não poderia mais continuar.
Por algum tempo, ele apenas a observou. Passados alguns dias, ele pegou seu bloco de notas, e começou a fazer alguns pequenos rabiscos. Desenhou os olhos claros dela, seu cabelo ruivo, o sorriso discreto que ela possuía. Ela fora imortalizada em um velho bloco de notas de um garoto invisível. Ele a imortalizou em sua ciência artística, de onde ela jamais seria esquecida.
Em um certo dia, o destino resolveu agir. Sem motivos, o cientista resolveu ir até um pequeno café próximo ao parque em uma certa manhã enuviada. A cafeteria estava bastante lotada, cheia de pessoas vestindo roupas negras. Ele viu uma mesa livre no canto mais afastado do café, e foi para lá que se dirigiu. Rabiscou um novo desenho da garota enquanto esperava ser atendido por uma garçonete mal-humorada. Não viu quando a porta se abriu, e por ela passou uma ruiva com roupas joviais, sorriso alegre estampado no rosto, cumprimentando a todos e não recebendo nenhum "bom dia" em retorno. Ele só a viu quando ela se dirigiu até a mesa mais afastada do local, e lhe disse "bom dia". Sem jeito, ele a respondeu educadamente. E ela pediu para se sentar ali. Não vendo nenhum problema em dividir a mesa com a garota que ele havia imortalizado em diversos desenhos, ele lhe lançou um sorriso, perguntando seu nome.
Veja bem, a garota obviamente tem um nome. Porém, se eu lhe disser seu nome, você se apegaria a ela da mesma forma que o cientista se apegou. A imortalizaria em sua mente, e talvez até em desenhos. Ela já fora imortalizada antes; não há motivos para ser imortalizada novamente. Portanto, seu nome não nos interessa.
E assim, com essa pequena brincadeira do destino, os dois se conheceram. Conversaram por muitos dias, se tornaram bons amigos, e cometeram o maior erro que poderiam ter cometido. Apaixonaram-se um pelo outro.
Semanas se passaram, ambos no auge da felicidade. O cientista agora a conhecia, conhecia seus detalhes. Poderia fazer desenhos melhores tendo ela como sua modelo. E ela também o imortalizara, em suas fotografias. Eles se amavam, é claro, e não havia ninguém que pudesse alegar o contrário.
Exceto o destino. E essa é a segunda vez que ele aparece aqui.
Por bobagem, os dois discutiram. Era um dia feio, aquele. O céu era cinza, a chuva não queria cair e o sol não desejava aparecer. Era um daqueles dias onde tudo parece dar errado com todo mundo. E com eles, não foi diferente.
Discutiram. Por horas. Ela decidiu deixar tudo para trás e ir embora da cidade. "Para sempre", dissera. Mal sabia ela que o para sempre mal dura alguns anos. Discutiram, os dois. Romperam o relacionamento ali. Deixaram seus corações se quebrarem. Jogaram a culpa um no outro, esquecendo-se de que os únicos culpados eram eles mesmos.
Depois desse dia cinzento, ele nunca mais a viu. Mas ele nunca mais a esqueceu. Sofrendo, ele a desenhou. Em diversos locais, ele a imortalizou. Porém, um novo dia cinzento surgiu. Ele tentou ligar para ela, sem sucesso. Chorou suas lágrimas, as secou, pensou incansavelmente no motivo do fracasso do relacionamento. Engoliu seu orgulho; queria-a de volta. Como jamais quisera algo antes. Mas era tarde demais.
 Ele queria mostrar a alguém sua dor. Então, pegou todos seus desenhos na qual ela era a única modelo. Foi até a fonte da praça central, no começo do dia, e soltou seus desenhos. Eles se espalharam ao vento, alguns chegaram nas mãos de outras pessoas. As pessoas guardaram estes desenhos, por não entenderem o que sentiam quando os viam. Era de uma beleza inegável, e de um mistério maior ainda. Um acontecimento em seus dias. Talvez elas fizessem isso para sentir que ainda eram vivas.
Mas havia um desenho que o cientista manteve consigo. Era um belo desenho da moça segurando uma câmera fotográfica, e em anexo, havia uma fotografia dele, a desenhando. Suas imortalidades numa única obra de um sentimento inexplicável. Seria impossível transcrevê-la aqui. Mas imagine o mais lindo dia, o sol brilhando, o céu sem nuvens. A temperatura perfeita, a companhia perfeita. Sua mente em paz... E a melhor música do mundo tocando ao fundo. E de repente, o céu escurece, fica de um azul-marinho mágico, horrível e belo ao mesmo tempo. A companhia ainda está ali, a temperatura caiu alguns graus. A chuva começa a cair de forma agradável, estragando, mas ao mesmo tempo, melhorando seu dia. Acho que essa obra que o cientista mantinha consigo era mais ou menos assim. Horrível, e lindo ao mesmo tempo.

Muitas semanas se passaram. Ele ainda pensava nela. Ela estava desaparecida para ele. Não se sabe de seu paradeiro.
E agora, o destino resolve agir mais uma vez. A terceira e última vez.
A garota voltara a cidade. Mas não era mais uma garota. Agora, ela era uma pessoa importante. Muito séria. Trabalhava em um escritório no centro da cidade, e todos os dias, passava pela fonte da praça central da cidade...
Ele ainda desenhava por hobbie, ia para a fonte da praça central e observava o movimento. E então, percebeu alguma coisa de diferente no mar de pessoas infelizes.
Ela era apenas mais uma no meio de uma confusão de pessoas apressadas. Cabeça abaixada, caminhava olhando para o chão. Passos rápidos, tentando se equilibrar em cima dos sapatos de salto alto. Volta e meia, ela colocava uma mecha do cabelo ruivo espesso para trás da orelha. Uma das mãos segurando firmemente sua bolsa negra, cheia de papéis e pequenos objetos. Ela passou na frente dele, e não o viu. Mas ele a viu, e percebeu que mesmo depois de tanto tempo, seus olhos claros ainda eram de uma cor indefinida. Seus cabelos ainda eram rebeldes. Mas ela não era mais a jovem fotógrafa sonhadora por quem ele havia se apaixonado.
E assim, essa história se mantém por dias... Porém, não há o destino agindo. E ela nunca reparou no seu amor, sentado na fonte, a eternizando em um velho bloco de notas. Aliás, como qualquer outra pessoa, ela nunca reparou que não era só mais uma. E de tanto não reparar, ela acabou se tornando isso... Apenas mais uma na vida d'o cientista, que incansavelmente, dia após dia, a imortalizava novamente em uma nova folha de papel em seu bloco de notas.





Por: Bruna Baptista.

sábado, 22 de junho de 2013

Welcome back, dear millionaires.

Seria legal se, para voltar de um grande período de abstinência de postagens, eu chegasse aqui com um lindo texto e blablabla. Pois bem, não é isso o que farei. Na verdade, só queria compartilhar com vocês (ainda tem alguém que entre nesse blog, ou eu falo sozinha?) uma linda música da minha linda banda preferida que praticamente ninguém conhece.


Apresento a vocês a música Millionaires, da banda The Script.

domingo, 27 de novembro de 2011

Só... Fria.

Há vários estilos de corações. Os fechados, os de uma porta, de duas; corações feito tílburi de praça, que ama a todos e todas.
E há, sim, outros tipos de corações. Corações que parecem ter “brinquedo” marcado a ferro em suas paredes. Que, quem está de fora, vê, usa, brinca, como uma boneca de panos; manipula, joga, faz estratégias para ganha-lo, e então, jogá-lo fora, feito um brinquedo há muito tempo usado e abusado.
Há o tipo de coração que não possui um nome.
Ele já foi tudo; já foi tílburi, já foi de uma porta, de duas, já se manteve fechado “para balanço”.
Muitos o chamam de “coração mutante”, mas acho que deve haver termo melhor. Só não o encontramos, ainda.
Este coração, o “coração mutante”, é o meu tipo de coração.
Ele tem uma leve batida; tão suave quanto a brisa. Quem está distante, não o escuta. Ele não se movimenta; não faz barulho. As pessoas, ao longe, não o entendem. Acham que não bate. Não sentem na alma a leve vibração que ele possui. Tão discreta, esta vibração... Tão... Modesta, tão... controlada.
Por fora, ele está inteiro. A porta, apenas encostada. As janelas (sim, ele possui janelas!), mostra a parte interna. Tudo muito bonito, tudo muito arrumado. Por fora.
As pessoas se aproximam dele facilmente, motivadas pela curiosidade daquele coração que parece não bater. Observam sua porta, sua única porta. A outra, escondida ao fundo, já está fechada há tanto tempo que quase não existe. Tocam nele; sentem seu ritmo suave; sentem seu pulso fraco. Olham por suas janelas.
Lá dentro, tudo escuro. A pouca luz que entra do exterior mal ilumina o chão. Por dentro, ele está machucado, está bagunçado, está machucado. Suas paredes internas – que um dia foram de um lindo vermelho-rubro; da cor de sangue, da cor da paixão – agora são acinzentadas.
Alguns curiosos ousam entrar. Outros, vão embora, com medo dos segredos que este coração esconde. Poucos entram e permanecem; ajudam a limpar a bagunça e a reconstruir este coração jovem, mas ao mesmo tempo tão velho...
Porém, estas que entram e permanecem, permanecem por um longo tempo, se não eternamente. Organizam-no, arrumam-no. Cobrem os buracos das paredes. Sentem suas batidas; aquele leve tamborilar suave. Eles sabem que ali há um refúgio. Limpam-no e ajudam--no. Pensam como é possível que haja um coração tão machucado, mas que ainda bate.
Este coração, que parece tão triste por dentro, que parece tão... Machucado, é um exemplo quase perfeito do coração mutante. Se este permanecesse sempre se modificando para o mesmo, e nunca fosse o mesmo.
Desculpe, meu coração é além disso. Ele é tão confuso quanto a personalidade da pessoa que o carrega. É tão confuso quanto eu.
Ao mesmo tempo que ele parece quase sem vida, da mesma forma que ele parece um coração que mal bate, ele é vivo. Tão vivo quanto qualquer coração vivente, que bata mais forte que bumbo no desfile de carnaval. Ele é forte; ele oferece conforto. Ele protege, ele se importa. Mesmo que seja com alguém de fora.
Quem precisar de algo, não precisa entrar e ficar; basta entrar por um tempo, e permanecer ali o tempo que precisar.
Não, não é um coração masoquista. Ele se importa com os outros corações, mesmo que esses outros não se importem com ele.
Este coração, que tanto se importa, costuma sofrer sozinho. Costuma tentar reparar-se sozinho. Mesmo que ele não esteja sozinho.
Melhor observando, e ouvindo, há uma leve música na batida suave como uma brisa. Há uma musicalidade nas paredes acinzentadas e esburacadas; há um ritmo nas vibrações cansadas e vívidas dele.
Há um leve tom de rosa nas paredes, atrás de toda a poeira cinza.
Sim, é apenas uma fase.
Ele sabe disso. Eu sei disso.
Sofrimento... Não. Saudades. Este é o motivo da cor cinza. Saudades de amores que um dia se foram. Pessoas que entraram nele sem fazer cerimônia, deixaram sua marca a ferro, disseram que nunca iriam sair dali.
Mas saíram. Sem dizer “adeus”. Sem apagar suas marcas.
Isso dói, mas sei que passa.
Um coração conselheiro, que cantava ao som de suas batidas.
Só... Fria. Só... Fria.
Só fria, as batidas. Elas cantavam isso, o tempo todo. E então, ao ver aquelas pessoas que marcaram suas paredes e se foram, tamborilavam mais rápido.
Só... Fria. Só... Fria. So... Fria. Sofria. Esta era a palavra formada por suas batidas.
Sim, sofria. Mas não, não é assim que deve ser. Ele aprendeu consigo mesmo, e com as pessoas que tentavam restaurá-lo, que não deveria manter isso dentro de si.
Sim, há as marcas, e daí? Estas pessoas que marcaram; vai saber se não há marcas nelas também?
Sim, devem haver marcas. Tantas marcas quanto o possível.
Só... Fria. Só... Fria. So... Fria. Sofria. Não. Está na hora de cortar alguns “efe’s”.
Só... Fria. Só... Fria. So... Fria. Sofria. Está errado. Não há nenhum “efe” em “sofria”.
Sorria. Sim, sorria.
So... Ria.
Estas batidas voltavam a ser controladas.
Só... Ria. Só... Ria. Sorria.
Sorria, sim. Sorria. Esta palavra agora é a música das batidas. Sorria. Sorria o máximo que puder, sorria para afastar estas marcas e transformá-las em cicatrizes.
Sim, SORRIA! Estas são as batidas.
As batidas de um coração humano, sem nome, sem cores, sem amores.






Por: Bruna Baptista.

sábado, 22 de outubro de 2011

Para vocês, que se acham normais.

Há alguns dias, ao chegar da escola, me deparei com uma cena no mínimo desagradável, para uma garota como eu.
Havia um grupo de cerca de sete garotos na esquina, e eu deveria passar por eles. Todos, sem excessão, me olharam dos pés à cabeça, e não se importaram com o fato de eu ser tímida, e olhar para o chão.
Sinceramente, me senti como se fosse um lixo. E isso é algo completamente desagradável.
Controlei-me para não correr, ou fazer algo ridículo. Apenas passei por eles, pisando firme, com a minha música no máximo, para não ouvir absolutamente nada, além do meu ritmo de caminhada.
Um vento acabou por soprar, me fazendo derrubar absolutamente tudo o que levava nas mãos. Meu rosto ferveu e eu desejei ter um boné da invisibilidade, ou que um buraco até o Mundo Inferior se abrisse e me engolisse.
Respirei fundo, e comecei a juntar tudo o que tinha nas mãos - minha pasta de ed. artística, o álbum de estudos sociais, três cartazes e um jogo de cai-não-cai - e tratei de respirar fundo (agora eu podia ouvir alguns daqueles garotos rindo, pois na confusão, meu fone de ouvido resolveu cair também).
Ao contrário do que muitos devem estar pensando, não me exaltei. Apenas juntei minhas coisas e entrei em casa. Afinal, eu pensei, para quê exatamente discutir? Eles têm o direito de rir de uma pessoa como eu, não? Não há culpa alguma em rir de uma atrapalhada.
É claro que há. Ninguém gosta de ser motivos de risos. A não ser que você seja um palhaço, o que não é o meu caso.


Enfim, resumindo tudo isso, vou lhes dizer porque este episódio rendeu este texto.
Enquanto juntava minhas coisas, pensei em quantas garotas e garotos como eu já não pagaram este mico. E quantas dessas pessoas não 'tinham algum problema em sua casa, ou dentro de si.
Quantas dessas pessoas já 'teriam sofrido bullyng? Ou quantas estariam sofrendo bullyng, naquele exato segundo? NESTE exato segundo? Quantas dessas pessoas não sentiram a mesma coisa que eu, aquela vontade incrível de sumir do mapa, de deixar suas coisas ali e simplesmente sair correndo?
Claro, eu não derrubei de propósito, eu derrubei por conta de uma distração; mas quantas pessoas que derrubam suas coisas na verdade o fazem para chamar a atenção? Ou também por uma distração?
E por que quem vê não ajuda, apenas ri? Essa é a nossa "sociedade igualitária"?
Desculpem, mas se isso for a sociedade "igualitária" - não apenas brasileira, mas a americana, a chinesa, coreana, enfim, a sociedade mundial - por favor, me tirem dessa.
Cansei de ser idiota, ou ser feita de.
Cansei de ver garotas e garotos tímidos sendo usados como objetos de riso. Por favor, isso é uma grande merda! Todos não são iguais? Não é isso o que dizem? Então por que existe o "julgamento"? Ah, fala sério.
Você, aí, que ri de pessoas "idiotas" feito eu e feito aqueles que usam óculos, aparelho, são tímidos ou usam roupas esquisitas na sua opinião, o mundo não é teu. E o lesado idiota aqui, é só você.

Só estou pedindo uma chance, por todas as pessoas que sofrem ou já sofreram algum tipo de preconceito e bullyng (escrevi errado?) de serem elas mesmas. Todas as pessoas são diferentes, e são especiais e perfeitas por isso.