sábado, 19 de fevereiro de 2011

de volta à Dezembro.

Durante todo o ano aguardo por este maldito dia. Sempre o passo da mesma forma. Sorrisos falsos, agradecimentos e conversa fiada. Todos os anos era assim.
E, neste último ano, para minha alegria não foi assim.
Os sorrisos foram sinceros, os gritos também. As conversas jogadas fora, e o tempo perdido valeu a pena.
E, mesmo que eu me sentisse incompleta, foi feliz.
Adorável.
Pude ser eu mesma por um dia.
Pena que foi uma despedida.
Enquanto lembro daquele dia, lágrimas vêm aos meus olhos, e insistem em cair, e deixar meus olhos vermelhos e caminhos por entre minhas bochechas.
Amanhã faz dois meses que as vi juntas.
Toda a noite, antes de dormir, me pergunto a motivação por trás disso tudo.
Seguro as lágrimas. Já chorei demais. Está na hora de seguir em frente.
Me pergunto porque o destino faz isso.
Coloca pessoas ótimas em meu caminho, pessoas que nunca esquecerei, e então, como em um jogo de xadrez, faz sua jogada.
Cheque-mate.
Me arranca de lá como se eu fosse uma pena sob uma ventania. Me arranca de lá de forma tão abrupta que fico desnorteada. E, como de praxe, não choro em despedidas. Odeio elas.
Por mim, teria sido segredo, tudo seria um segredo. Mas não dá.
A dor é maior.
Não a dor de sentir falta; é a dor de saber que talvez aquele tenha sido o último dia com aquelas pessoas.
Isso é o que mais dói.
Ir embora não é nada. Lembrar dos momentos, e perceber que eles não terão volta é o que causa toda a dor.
As lágrimas insistem. Elas querem se derramar.
Não são apenas lágrimas de saudade; são lágrimas de incerteza, de medo, de receio. Esta é a minha sina.
Sentir falta.
Se sentir incompleta.
Lembrar de momentos incríveis, inesquecíveis, que um dia se tornarão apenas um borrão na memória.
Um dia, esquecemos. Dos nomes, talvez, não. Mas da voz, do jeito, da personalidade. As pessoas mudam. O mundo muda. Nossa mente muda.
Hoje, somos adolescentes problemáticas tentando mudar o mundo.
Amanhã, seremos escritoras, professoras, engenheiras, cantoras, musicistas e tudo o mais. Vamos conhecer outras pessoas, seremos amigas delas.
E então, apenas lembraremos da amizade em si. Dos textos escritos e imaginados. De uma série de paixõezinhas que vivemos todas juntas. Lembraremos das brigas, mas não dos motivos.
Conforme vem o tempo, vamos mudando.
Vamos esquecendo de como era ficar junto.
Nunca mais nos veremos. Não da mesma forma que nos víamos no dia 20 de Dezembro de 2010.
Mudamos. Talvez pouco, mas mudamos.
E todos os dias, todas as horas, eu volto para Dezembro.
Ver se consigo resgatar as sensações daquele dia. Os risos. Os gritos. As indignações. As conversas.
E, mesmo dois meses depois, não me lembro com muita nitidez.
Sinto que tenha que ser assim.
Peço perdão em nome da vida.
E agradeço os momentos de felicidade.
As lágrimas já caem como cascatas, enquanto tento lembrar e sentir como me sentia quando éramos apenas adolescentes despreocupadas, chorando por garotos idiotas e brigando por nada.
E rindo por causa da menor brisa.
É, fará muita falta.
Mudamos, queridas. Mudamos.
Nos tornamos mais adultas.
As decisões começaram a pesar.
Que tal voltarmos à Dezembro, e reviver aquele dia?
Mas só por um momento. Temos de seguir em frente. Dói, eu sei. Acreditem, eu sei.
Mas estaremos sempre aqui.
E aquele dia estará sempre lá.
De volta à Dezembro, para poder ser livre mais uma vez.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

isto eu prometo.

Uma claridade tênue cortava o breu de mais uma noite sem estrelas. Nestas noites - noites portadoras de más notícias -, nem a Lua, em sua magnífica beleza mística, ousava aparecer.
Os primeiros raios de Sol chegavam à Terra, mas era cedo demais para que o astro-rei mostrasse sua beleza. Naquela época - época de guerras civis -, não era difícil andar pelas vielas e ver restos de uma batalha sangrenta, que havia ceifado a vida de jovens, velhos e crianças, para além dos portões do Paraíso.
Pessoas inocentes morriam nesta guerra de poderes. De um lado, o povo. Do outro, homens de farda, com uma postura esnobe. Homens que davam a vida pelo império.
E era neste fogo-cruzado que uma garota simples, porém, de beleza singular, vivia com seu velho e doente pai.
Ela pensava nesta guerra, enquanto aguardava o mensageiro da vila.
Há dois dias ele não aparecia; ela começava a se preocupar. Aguardava uma carta que iria mudar sua vida, fosse para melhor ou não.
As mãos trêmulas mostravam aos olhos humanos o que se passava no seu coração. Apenas dezesseis anos possuía a jovem; mas tão velho coração sofrido batia em seu peito de modo lento e cansado.
Mais uma madrugada ela havia passado em claro; a xícara com o chá amargo quase lhe escorregava entre os dedos finos e calejados; os cabelos negros presos em um emaranhado de fios atrás de sua cabeça. Seu vestido já velho, sujo e rasgado aguardando o momento do descarte. E o coração da garota batia no ritmo em que o ar passava por seus pulmões.
Acompanhando a trajetória da estrela D'Alva, ela sorria, enquanto lágrimas lhe vinham aos olhos. De certa forma, ela esperava por más notícias. A guerra tinha retirado tantas vidas de seu curso...
Respirou fundo quando veio uma rajada de vento quente. Embora morasse no litoral, a garota não gostava das brisas que a alcançavam da praia. Ansiava pelo dia no qual ela se veria livre. E, por ela, esse momento seria nada além de agora.
Distraída nestes pensamentos, a garota não tomou conhecimento do tropel de cavalos que vinha ao longe.
Não se sabia se eram os mensageiros da vila, ou se eram novas tropas de guerra. Seja o que fosse, vinham em grande número, e o som que retumbava pela vila era mais assustador que qualquer grito de alma penada.
A garota sentiu o coração se inflar, querendo bater mais depressa do que era capaz. Sentiu uma dor desconfortável, mas não se importou. Não agora, ela pensou.
No horizonte, junto com os primeiros raios de Sol, ela viu o que mais esperava há dias: a Cavalaria enfim chegara à vila!, mas não havia forma de ter certeza absoluta.
O tropel ficou mais alto.
A garota começara a suar.
A aura de nervosismo dela era quase tangível.
Os cavalos se aproximavam. Ela já poderia reconhecer alguns cavaleiros. Entre eles, o tão esperado mensageiro. Enfim, ele veio!, pensava, controlando-se para não correr em sua direção.
Um cavalo negro parou defronte à ela, e anunciou seu nome. Se adiantando, ela tomou em suas mão uma unica carta. A carta tão esperada!
Leu o nome do remetente; sim, era dele.
Há alguns anos ela havia conhecido um belo soldado; jovem, poderoso, e, acima de tudo, rico. Estava lutando ao lado do governo. Os dois se sentiram atraídos um pelo outro; passaram alguns dias juntos na capital. E, quando a guerra estourara, ele lhe disse que viesse com ele; iriam fugir.
Sem pensar, ela aceitou. Seu pai estava à beira da morte, e a filha do vizinho havia se disposto a ajudar. Nesta carta deveria haver a forma que ela iria ao porto.
O mensageiro partiu, e a garota, com as mãos trêmulas, se sentou em uma velha cadeira de balanço na varanda.
Abrindo o singelo envelope, e raptando de lá a carta, as emoções dela se misturavam. Antes mesmo de ler a carta, ela estranhou algo.
A caligrafia era dele, mas a carta era formal, e dizia que agradecia por comparecer à capital para as tentativas de acordo entre ambas as partes dos guerreiros.
Até que ela percebeu uma nota atrás da página.
Era bastante simples, mas claro.

Nosso romance coloca o país em risco. Siga em frente, e seja feliz. Sinto muito.


Lágrimas vieram aos seus olhos, e caíram no papel com a caligrafia fina de seu amado.
Eu devia saber, ela pensava.
Adentrando a casa, mal percebeu quando um segundo papel caiu do envelope.
Pegou a vassoura e ia começar seu trabalho quando um vento anormal arrombou a porta, trazendo consigo a segunda carta.
Curiosa, ela abriu-a.
Era a folha de um jornal, datada do dia anterior.
Havia uma folha grudada a ele.

Caso minhas suspeitas se confirme, o rabisco dizia, enviem a notícia junto com esta carta. E digam que eu a amei até o fim. Eu prometi, e cumpri.


Levantando esta folha, tremendo mais do que nunca, estava estampado na primeira página do jornal áspero:

Navio para Londres bombardeado. Cinquenta pessoas mortas. Entre elas, o filho do General. 


O filho do General.
Não era possível.
Era o seu amado. Ele sabia de tudo, e abriu mão da garota para salvá-la da morte.
Ele havia prometido isso a ela pouco antes de partir.
Desta vez, as lágrimas que caíam de seus olhos era da mais profunda e sincera tristeza; o luto tomava conta de sua alma e ocupava toda sua mente. Deixou-se cair, sentindo uma dor tão profunda em seu coração, que imaginava que sua doença estava livre. Era questão de segundos até que desse seu último suspiro.
Sorrindo, ela se lembrou da promessa que havia feito a ele: assim que soubesse de sua morte, ela morreria. Apenas para ir ao seu encontro, na direção do Eterno.

O astro-Rei despontou no horizonte, com ar de luto. Seus raios de luz envolveram o corpo frágil e magro de uma garota, em uma varanda de uma casa simples.
Como quem soubesse da história dela e de seu amor, os raios acima da casa foram os mais brilhantes que se podia imaginar.
A vila chamou isso de milagre.
Mas, por causa de três palavras, duas vidas foram arrancadas de seu curso.
Isto eu prometo.